Sábado era oficialmente o dia perfeito: pela manhã, dormir o dia inteiro; durante a tarde, escolher uma roupa; durante a noite, a festa do século. A famosa Janette, conhecida por suas festas bombásticas e inesquecíveis, tinha organizado mais uma; e essa prometia ser a melhor de todas. O motivo? Estamos de férias e em uma praia absolutamente maravilhosa e deserta, a festa seria na própria areia e com direito a ver o pôr-do-sol. Eu já tinha dado uma passada no local da festa – afinal, eu dava uns pitacos na decoração e na escolha das músicas – e fiquei de queixo caído com a produção, mesmo já sabendo o que esperar: luminárias coloridas estavam sendo instaladas e o bar estava impecável. A cabine do DJ estava espetacular e cheia de enfeites.
Decidi optar por um vestido verde de manga longa e que marcava a cintura; ele possuía também uma generosa fenda nas costas.
Saí do banho renovada, eu estava mesmo precisando daquilo. Terminei de me arrumar em menos de uma hora e meia – um recorde quando se trata da minha pessoa. Finalizei prendendo o meu cabelo para um só lado e colocando meu scarpin bege (tenho de me lembrar de agradecer à Janette pelo maravilhoso tapete vermelho que ela mandou por na pista de dança; tapete esse que me permitia tranquilamente usar um sapato de salto, mesmo estando na praia). Mirei o espelho pela última vez e, satisfeita, saí do quarto. Entreguei a chave à moça da recepção e deixei o hotel de taxi. Cheguei à festa e a mesma já tinha começado e estava relativamente cheia.
- ! – ouvi alguém chamar. Reconheci o som como vindo do bar. Segui até lá, me esquivando de algumas pessoas e, ao chegar, me deparei com Janette e Emily no maior dos papos com os barmans. Sorriram para mim quando cheguei e pararam com o “momento flerte” para vir me cumprimentar. As duas estavam belíssimas: Janette usava um vestido branco de um ombro só, com uma leve abertura na perna esquerda. Seus cabelos ruivos se destacavam no look, que não tinha uma maquiagem muito pesada; Emily, por sua vez, estava com uma blusa amarela também de um ombro só e uma saia de cintura alta na cor pêssego.
- A festa está incrível! – elogiei, enquanto abraçava Janette.
- Obrigada. – ela agradeceu, me soltando e dando um passo para o lado, me dando espaço para abraçar Emily. Depois de feito isso, acenei para elas - que se dispersaram: Emily começou a conversar com um garoto bem bonito que foi até o bar, e Janette sumiu na pista de dança – e saí para dar uma volta pela festa.
Eu estava muito animada! Adorava festas e esta, particularmente, estava excepcionalmente tentadora. A água do mar estava sendo iluminada pela lua; que brilhava forte. O único sinal de civilização vinha da festa, o resto da praia estava vazio. Quer dizer, a não ser por uma figura sentada no alto de uma das pedras perto do mar. Não dei muita atenção para o tal ser vivo, entrando na pista de dança e começando a me mexer ao ritmo da música que estava tocando. Depois da terceira música, fui até o bar e pedi uma bebida azul que eu não tinha muita certeza do que tinha dentro – também não perguntei, mas tinha certeza de que tinha sido invenção de Emily, ela vive inventando drinks exóticos. Quando dei por mim já estava no quarto copo daquilo e dançava animada ali no bar mesmo. Alguns me olhavam torto, com raiva de eu estar atrapalhando a passagem, mas eu nem ligava.
A tal bebida acabou e eu deixei meu copo vazio na bandeja de algum garçom que passava ao meu lado no momento. Decidi dar uma volta na praia e fui até mais perto do mar, tirando o sapato onde o tapete acabava e segurando o par na mão direita; coloquei os pés na areia e sorri com a gostosa sensação que aquilo me trazia. Fui andando, até que parei perto de uma pedra enorme. Comecei a subi-la e, ao chegar lá em cima, vi um cara sentado e encarando a lua.
- Ahn, oi. Desculpe, eu não sabia que tinha alguém aqui. – falei e ele virou para mim, com uma cara nada simpática, revirou os olhos, bufando, e tornou a olhar para frente. Ignorei a falta de educação do rude homem e cedi ao cansaço que subir aquela pedra tinha me causado, sentando ao lado dele, mas ainda assim um pouco distante. Parei para observá-lo e vi que ele tinha uma expressão abatida, olheiras e olhos vermelhos; indicando que ele havia chorado há pouco. Apesar disso, não pude deixar de notar que ele era extremamente bonito, tinha cabelos em um tom e olho ; aparentava vinte e poucos anos. Algo dentro de mim gritava que ele precisava de ajuda; e que era eu quem devia ajudá-lo. Respirei fundo. – Como é o seu nome? – perguntei, com a voz suave.
- Dá pra você me deixar em paz? – respondeu com outra pergunta; sua voz soava áspera e seu tom indicava irritação.
- Você é sempre assim? – perguntei, segurando minha raiva e não deixando o orgulho me consumir e me levar pra longe dali.
- Assim como? – me encarou com o olhar vazio e a expressão de tristeza. A voz continuava áspera; mas possuía um leve tom curioso.
- Frio. Alheio ao mundo e contra qualquer tipo de aproximação; tratando rudemente qualquer um que tenta ajudar.
- Ajudar? – jogou a cabeça para trás, rindo ironicamente de tal forma que me arrepiou. – Ninguém pode me ajudar.
- Tente. – provoquei, normalizando o tom de voz. Ele bufou e colocou as mãos atrás do corpo, como apoio, e se inclinou mais para trás. Tentei rir, mas tudo o que saiu foi um som estranho e indecifrável. – Que foi? Está com medo do que uma desconhecida vai pensar sobre você? O estranho virou a cabeça teatralmente para mim, arqueando a sobrancelha.
- Não tenho medo de nada.
- Se você diz... – achei melhor não discutir. – Meu nome é .
- Não perguntei. – a aspereza retornou à sua voz e dessa vez meu orgulho falou mais alto. Bufei, irritada, e tornei a observar a lua, ignorando por completo o cara ao meu lado. Comecei a prestar atenção na música que tocava na festa e eu cantarolava baixinho e balançava a cabeça no ritmo dela. Quando me lembrei da fria pessoa ao meu lado e me virei para observá-la, percebi que não tinha mais ninguém ali. Fiquei em pé e desci da pedra com o objetivo de voltar à festa, mas ouvi um barulho estranho vindo do lado oposto a ela.
Segui cautelosa e silenciosamente pela areia, contornando a pedra, e de costas para mim reconheci o mesmo cara com o qual eu estava segundos atrás. Ele possuía no rosto uma expressão raivosa e socava a pedra com força. Chegava a doer em mim ver a força que ele usava lançando a mão contra a pedra. Num impulso, corri até ele.
- PARE COM ISSO. – gritei, atraindo a atenção dele, que se virou para mim com um olhar fulminante, mas no lugar da raiva seu rosto demonstrava certa tristeza.
- Garota, qual é o seu PROBLEMA? – gritou, socando a rocha mais uma vez e tornando a olhar para mim. – QUER DAR UMA DE BOAZINHA ACHANDO REVOLTADOS POR AÍ QUE PRECISEM DA SUA BOA VONTADE? EU NÃO PRECISO! – socou mais uma vez a rocha e saiu andando decidido para o lado oposto ao da festa.
Eu não pensava com clareza, já que estava um pouco alterada, por isso não entendo por que cargas d’água eu segui o garoto. Medo da morte? Eu parecia ter perdido totalmente. No lugar dela, a curiosidade e a vontade de ajudar de algum jeito parecia ter tomado conta do meu ser. Ele parou de frente para o mar e fechou os olhos, abrindo os braços para sentir a brisa. Segui até ele e, de um modo desajeitado, o abracei com toda a força que consegui. Seu corpo rígido tremeu com o contato, mas com o tempo foi se acostumando àquela nova sensação. De início ele não retribuiu o abraço, nem eu esperava que o fizesse; mas quando eu estava quase o soltando, ergueu o braço esquerdo, apertando minha cintura, e deitou o rosto em meu ombro. Não me mexi, com medo de o coração de pedra do desconhecido tomar conta dele de novo e a aspereza ser jogada para cima de mim novamente. Meu medo se tornou realidade, já que no segundo seguinte ele tinha me soltado, me fazendo cair de bunda na areia e sumido de minha vista.
Suspirei, ainda mexida por tudo que acabara de acontecer, e me levantei, indo até a avenida para chamar um taxi. Cheguei ao hotel e me atirei na cama, dormindo imediatamente. Levantei, indo direto para debaixo do chuveiro. Chequei o relógio e já eram cinco da tarde. Saí do banho e me arrumei, indo comer alguma coisa no restaurante do hotel. Pedi um sanduíche qualquer que vi no cardápio e o devorei sem muito interesse. Terminando de comer, voltei ao quarto para escovar os dentes e desci novamente, saindo em direção à praia, na esperança de encontrar o desconhecido da noite anterior. Meu objetivo era derreter aquele coração de gelo e descobrir o que tanto afligia aquele que, mesmo por alguns segundos ontem, me mostrou que estava magoado.
Segui até aquela mesma pedra e não me surpreendi ao ver uma silhueta lá, sentada e encarando o – agora – Sol.
Subi silenciosamente e sentei ao seu lado, sem dizer uma só palavra.
- O que você quer aqui? – o abominável áspero deu seu primeiro golpe.
- A praia é pública. – respondi com a mesma aspereza, sem olhá-lo.
Depois de longos minutos em silêncio, ouvi o homem ao meu lado bufar. Olhei para o lado direito e vi uma família que tinha acabado de chegar na praia: uma mulher da idade de minha mãe, uma garota da minha idade junto com o namorado e um homem que eu presumo ter pouco mais de trinta anos. Todos pareciam se divertir muito, riam e brincavam um com o outro.
- Tá vendo a garota do biquíni roxo? – ouvi uma voz ao meu lado, que me assustou. Virei para o lado, sem acreditar que o estranho tinha mesmo falado comigo. Não tinha mais ninguém lá, portanto a voz só podia ser dele. – Era minha namorada. – continuou, sem esperar a minha resposta. – Namoramos por cinco anos. – ele suspirou, diminuindo a voz. – Sabe aquele cara com ela? – voltei a mirar a família, e percebi que a garota estava no maior amasso – quase fazendo um filho ali mesmo seria uma descrição mais exata da cena que eu estava presenciando – com o que julguei ser o namorado.
- O que tem o cara com ela? – perguntei, receosa.
- Meu melhor amigo. – riu fraco, como se zombasse da própria desgraça. – Amigo de infância mesmo, sabe? – fungou, se mexendo um pouco. – Ontem eles me chamaram para vir para a tal festa, mas eu, de inicio, não quis. Depois resolvi vir e, quando cheguei, me deparei com os dois... Você sabe. – suspirou novamente e eu não soube o que dizer. Achei melhor ficar calada do que falar alguma besteira.
- Eu até fui tirar satisfação com eles... – continuou. – Mas sabe o que ela me disse? Que eu estava muito depressivo durante as últimas duas semanas e não podia dar atenção e carinho pra ela; por isso ela resolveu pedir a atenção de outra pessoa. – sua voz foi rude, mas eu não me importei; agora entendia o real motivo dela. – Meu pai morreu duas semanas atrás... Por isso eu estava depressivo. E, ao invés da minha namorada me consolar, o que ela fez? Foi lá e me chifrou com o meu melhor amigo, justo na hora em que eu mais precisava de apoio. – sua voz era quase um sussurro, mas mesmo assim consegui entender. Sua testa estava franzida e seus olhos vermelhos; me ajoelhei e o abracei de lado, sem saber o que dizer.
- Obrigado. – ele sussurrou.
- Pelo que? Eu não fiz nada. – respondi, também num sussurro, o soltando.
- Fez muito mais do que aqueles dois fizeram durante todos esses anos. – olhou com desprezo para o lugar onde eles estavam e fechou os olhos, suspirando. Abriu-os novamente e me encarou tão profundamente que me deixou arrepiada. – Desculpe pelo jeito como te tratei ontem, mas eu descobri tudo aquilo da pior forma possível e acabei descontando na pessoa mais próxima. Sinto muito de verdade. – ele parecia incrivelmente sincero e, sem conseguir me controlar, o abracei novamente. Dessa vez ele me abraçou de volta, envolvendo os dois braços ao meu redor. – A propósito, me chamo . – sussurrou em meu ouvido e eu não consegui evitar um sorriso.
Ainda abraçados, percebemos certa diferença na paisagem. Soltei um pouco e olhei para frente – o sol estava começando a se pôr. Foi um espetáculo magnífico, do qual eu lembrarei cada detalhe. O pôr-do-sol parecia mágico... parecia pensar o mesmo que eu, já que encarava vidrado o gigante amarelo sumir de nossas vistas, dando lugar a uma linda e brilhante noite. Virei-me para novamente e afastei meu corpo o suficiente para conseguir olhá-lo nos olhos; pela primeira vez consegui ver certa doçura naquela imensidão . Ele começou a se aproximar de mim aos poucos, nossos lábios se tocaram com suavidade e nossas línguas se moviam em perfeita sincronia. Aquele era o melhor beijo que eu já provara na vida, durante ele esqueci de tudo ao meu redor.
Levei um susto com o barulho alto do meu celular, separando o beijo. Tirei-o do bolso e olhei o que era: despertador. Eu tinha uma hora para arrumar tudo e ir até o aeroporto, voltar à minha triste rotina.
- Eu... Tenho que ir. – suspirei pesadamente, triste por ter de deixar , eu queria ter tempo de conhecê-lo melhor.
Levantei e ele fez o mesmo.
- Eu vou te ver de novo? – perguntou e eu sorri fraco.
- Quem sabe? – respondi simplesmente, num tom de afirmação.
- Quem sabe? – ele repetiu, sorrindo largamente. Esse era definitivamente o sorriso mais lindo que eu já vira. Sorri, sincera, concordando com a cabeça, dei um selinho demorado nele e me virei, andando a passos demorados de volta para o hotel; de volta para a minha rotina.
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