- ... Temos más notícias. Eu... – pigarreou, se ajeitando na cadeira. – Você sabe que eu não gosto de rodeios, portanto serei o mais objetivo possível. A empresa foi vendida e o corte na equipe de funcionários foi imenso. Poucos são os que continuam na empresa.
- E eu... – comecei, apesar de já ter uma ideia do que esperar. Respirei fundo, sentindo um medo me invadir.
- Você foi demitida. Infelizmente. Sinto muito. – franziu a testa, dando um sorriso torto e eu apenas balancei a cabeça afirmativamente, sem dizer nada. – Você cumpre o expediente hoje e depois volta só para acertar o que falta. Sinto muito, de verdade.
- Tudo bem. Eu compreendo. – tentei sorrir e levantei, indo embora. Chegando à minha sala, liguei imediatamente para . Estava perdida. O que faria agora? Eu trabalhava nessa empresa há anos, não tinha ideia de onde procurar emprego.
- É, demitida. Acredita? Estou perdida, . Não sei o que fazer.
- Respire, amiga. Sei que é difícil, mas fique calma. Cumpra seu expediente hoje direitinho e depois vamos à festa de um amigo pra você esfriar a cabeça, pode ser? – falou, com a voz calma, e eu agradeci mentalmente por existir.
- Pode, pode sim. – respirei fundo, segurando o telefone mais firme. – A gente se encontra lá, então?
- Fechado. Vou te mandar um e-mail com o endereço. Esteja lá às seis, ok? A festa começa cedo. Beijos. - disse, desligando, e eu joguei o telefone dentro da bolsa; não estava querendo atender mais ninguém. Cumpri meu expediente normalmente, mas, dessa vez, me senti no direito de sair meia hora mais cedo. Fui à sala do chefe e falei para ele que estava saindo, ele não pareceu se incomodar por eu apenas avisar, não pedir. Sabia que eu estava triste e eu senti novamente em seu olhar um pedido de desculpas, porém eu sabia que a culpa não era dele; era apenas um funcionário. Cheguei em casa e tinha apenas quinze minutos para me arrumar. Tomei um banho rápido, o mais rápido da minha vida, e escolhi no armário um vestido verde. Verde. Novamente lembrei-me de . Verde era a cor do vestido que eu usava quando nos conhecemos e apesar de fazer seis meses, eu não consigo esquecê-lo. Sinto-me estúpida por estar apaixonada por um cara que conheci há tanto tempo, conversei tão pouco e há muito não vejo. Nunca mais o vi depois do meu último dia na praia. Não esperava isso, porém. Mas sempre há esperança. e Janette costumavam dizer que meu amor por ele era platônico, já que só tínhamos nos visto uma vez e, dadas as circunstâncias, eu estava começando a acreditar que era mesmo. Contudo eu não conseguia evitar. Era mais forte do que eu, as lembranças simplesmente... Vinham.
Fiquei encarando o espelho, já vestida, e os olhos de vieram à minha mente novamente. Os olhos... Tinha certeza que nunca tivera visto algo tão profundo e ao mesmo tempo tão doce quanto seu olhar.
O celular tocou alertando mensagem e me acordando de meu transe. Era uma mensagem de , perguntando onde eu estava. Peguei o papel onde tinha anotado o endereço, coloquei um sapato de salto e saí, sem me preocupar em arrumar o cabelo.
Cheguei ao local em poucos minutos e eram seis horas. Até que fui rápida dessa vez.
Encontrei minha amiga na porta, ela também tinha acabado de chegar. Entramos juntas e a festa já estava relativamente cheia, porém ainda não completamente. Seguimos até o bar e encontramos o dono da festa, que cravou o olhar em mim. Senti minhas bochechas ficarem quentes, mas me obriguei a sorrir.
- Bryan! Como você está? – foi até ele, cumprimentando-o com dois beijinhos, um em cada lado do rosto. – Essa é , a amiga da qual lhe falei. – piscou para mim e eu soube o que ela tinha armado. estava em um tipo de missão, tentando me fazer esquecer . Ela não estava tendo nenhum progresso, aliás. Mas preciso confessar que Bryan é realmente um belo pretendente. Ele é alto, loiro, tem olhos castanhos que demonstram sinceridade e um sorriso que me deixou estupefata. Ele não é , uma voz em minha mente gritou, e eu ignorei-a, apesar de concordar. Sorri e cumprimentei Bryan do mesmo modo que , depois dando uma desculpa qualquer e indo até o bar. O barman me encarava descaradamente e eu me senti desconfortável, apesar de bem ciente do comprimento do vestido. Eu não gostava de chamar a atenção, principalmente a masculina. Acabei por não pedir nada e segui até a pista de dança, querendo dançar. Mudei de ideia assim que cheguei lá e vi os sete homens que lá estavam se virarem para mim e me encararem de cima a baixo. Corei novamente e fiquei preocupada, será que tinha algo errado com o meu visual? Segui até o banheiro, trancando a porta, e encarei meu reflexo. Aparentemente nada errado. O vestido, apesar de curto, moldava-se ao meu corpo perfeitamente e não estava vulgar como eu pensei que estaria quando vi o olhar masculino sobre mim. Estava bonito. Sofisticado, até. O verde parecia ter esse poder sobre mim. Verde. Balancei a cabeça para evitar que o rosto de ocupasse meus pensamentos novamente, já estava cheia disso. Estava começando a parecer obsessão. Chega.
Dei uma voltinha e não encontrei nada errado, a única coisa diferente em mim era o cabelo, que incrivelmente estava arrumado. Diferente, sim, um pouco bagunçado, mas isso pareceu dar a ele um certo charme. Eu estava bem e me sentia bonita. Finalmente, satisfeita e confiante, saí do banheiro, porém passei reto pela pista de dança. Não queria alguém me incomodando agora, tinha medo de ser grossa, meu humor não estava dos melhores. Eu realmente gostava daquele emprego.
Fui até os fundos, subindo as escadas e dando de cara com um terraço enorme, que eu acreditava que estaria bem cheio quando a festa de fato começasse. Apoiei-me no parapeito e fitei o nada. De repente, o sol começou a se pôr, atraindo minha completa atenção. O pôr-do-sol sempre fora mágico para mim e, depois do que houve seis meses atrás, mais ainda. Quando a noite chegou e a hipnose que o pôr-do-sol tinha sobre mim deu uma trégua, percebi que estava com lágrimas nos olhos; algumas já tinham escorrido pela minha bochecha, inclusive. Acho que o fato de eu ter sido demitida hoje e sem ter ideia do que fazer mexeu com as minhas emoções. A incerteza do futuro apertava o meu peito e eu senti que já estava na hora de parar de reviver o passado e focar no presente. Dessa vez, eu iria realmente me esforçar para esquecer . Eu realmente iria. Prometi isso para mim mesma. O barulho calmo de uma respiração ao meu lado me trouxe de volta à realidade e eu percebi que tinha companhia; pelo barulho de passos e a música cada vez mais alta deduzi que o local estava começando a encher e a festa oficialmente sendo iniciada. Sequei as lágrimas do meu rosto e tentei descobrir a quanto tempo a tal pessoa estava ali. Não me virei para encará-la por ainda não saber se meus olhos estavam vermelhos. Apenas saí, passando no meio das pessoas e reparando que a festa estava ficando cheia. Saí da casa e fui em direção ao jardim, percebendo um banco isolado ao lado de uma árvore. Estava escuro, portanto ocultaria minha cara patética. Segui rapidamente até lá, sentando e apoiando o queixo nas mãos. As lágrimas já tinham secado e eu me sentia bem de novo, mas continuava não estando com clima para festas. Estava gostando da calmaria no jardim e pretendia permanecer por lá.
- Está tudo bem? – uma voz ao meu lado me assustou e eu dei um pulo, levando a mão ao peito; meu coração batia freneticamente. Eu não percebera que alguém tinha sentado ao meu lado. Apesar de o local ser um pouco escuro, conseguia ver o estranho ao meu lado perfeitamente. Ele tinha cabelo ruivo (visivelmente natural), olhos cor de mel e as bochechas um pouco rosadas. Parecia ter mais ou menos a minha idade e estava vestido de forma bem descontraída; usava uma bermuda jeans e uma camisa amarela. Não pude deixar de notar que ele era bem bonito. Apenas não era o meu tipo, mas imaginei que ele se daria bem com . – Desculpe, não quis te assustar. – a voz dele me assustou e eu desviei o olhar para o seu rosto. Percebi que ele sorria, divertido. – Meu nome é Jake. – estendeu a mão e eu a apertei cordialmente. Sorri também.
- . – respondi, e decidi puxar assunto. - Então... O que você faz aqui, mesmo com uma festa bombástica aqui na frente? – gesticulei para a casa da qual eu tinha acabado de sair, percebendo que pessoas continuavam entrando constantemente, e a música ficava cada vez mais alta.
- Eu ia te perguntar a mesma coisa. – falou e nós rimos.
- Ah... Não estou muito no clima para festas. – dei de ombros. – Você?
- Estava indo para lá, mas te vi aqui e resolvi puxar papo.
- Que prestativo! – brinquei, rindo. Estranho como eu me sentia confortável com ele, parecíamos velhos amigos. – Mas eu não quero estragar sua noite, pode ir pra festa.
- Nah. – ele entortou a boca numa careta fingida e eu contive um sorriso. – Só se você for muito chata. – piscou para mim e eu ri baixo.
- Pode apostar que eu sou. – falei, fazendo-o rir. Jake parecia ser legal e eu me sentia melhor por estar conversando com ele, nem sentia que havia chorado há pouco.
- Então, , por que você não está no clima para festas? – perguntou, cutucando levemente meu braço com o cotovelo. Encarei-o e o pequeno sorriso que ele mantinha no rosto me fez querer contar tudo a ele. É errado julgar as pessoas pela aparência, mas Jake parecia bastante confiável.
- Bom... Faz um tempo que eu conheci um cara e eu tenho tipo uma super queda por ele – Jake não precisava saber que era um pouco mais do que isso -, só que eu não o vejo há meses, só o vi por dois dias e não sei absolutamente nada sobre ele. Resumindo, nunca mais o vi e não creio que isso vá acontecer algum dia. O problema é que o maldito não sai da minha cabeça! E, pra completar, hoje fui demitida e não tenho a menor ideia do que vou fazer da vida daqui pra frente. – suspirei, jogando o corpo para trás e me escorando no banco.
- Nossa. Não é para menos que você não está no clima, no seu lugar eu não teria nem coragem de sair de casa. – ri da expressão que ele fez. Pela primeira vez não surgiram lágrimas em meus olhos ao me lembrar de ; já era um progresso.
- Claro que não! – gargalhei, dando um tapa leve no braço de Jake. Andávamos pelo jardim da casa, numa brincadeira de falar quem é ou não seu tipo, Jake falava quem ele achava que era o meu e porquê; e vice-versa. Já tinham passado umas três horas desde que comecei a falar com ele e arrisco dizer que fazia tempo que eu não me divertia assim, estava rindo horrores.
- Ah, vai me dizer que você não tem uma queda por homens barbudos? – perguntava, segurando o riso.
- Homem barbudo é uma coisa, Papai Noel é outra! – respondi, me apoiando nele para não cair de tanto rir. Sentamos na grama mesmo, apoiando as costas em uma árvore. O celular de Jake tocou e, enquanto ele falava, observei as estrelas. Passou uma estrela cadente e, no mesmo segundo, fechei os olhos e fiz um pedido. Pedi um sinal, um sinal de que era a pessoa certa. Abri os olhos, quase rindo de minha própria idiotice. Não sei o que se passava em minha mente quando pedi isso.
- Ei. – ouvi Jake dizer e me virei para ele, percebendo que ele falava comigo. – Tudo bem?
- Tudo. – ri.
- Deixe-me adivinhar: você também viu aquela estrela cadente e seu pedido foi algo a ver com o tal cara? – perguntou e eu dei de ombros, sorrindo afirmativamente. Como ele sabia? – Você não vai me contar o nome dele?
- Não. – respondi automaticamente.
- Até o final da festa você me conta?
- Quem sabe? – respondi, soltando uma risada nasalada e percebi que Jake ficou sério. – O que houve? Você está pálido. Jake? Quer uma água ou...
- . – ele falou e eu parei. – O nome dele é . – sua cor começou a retornar e ele abriu um largo sorriso. Meu queixo caiu.
- Como você sabe disso? – perguntei e seu sorriso se alargou.
- Sou o melhor amigo dele. – falou e depois gargalhou. – Eu não acredito que é você! Nossa. Acabei de perder vinte dólares.
- Como? – minha respiração ficou pesada e meu coração batia aceleradamente.
- Vinte dólares. Apostei com que ele nunca veria você de novo. Obviamente, eu perdi.
- Obviamente, nada. – respondi por impulso. – Eu ainda não o vi.
- Mas vai... Não vai?
- Não sei. – suspirei, olhando para cima. Esse era o sinal que eu tinha pedido... Não era? Ou será que era um sinal que me mandava seguir em frente, esquecendo essa história? Quer dizer, até parece que ele não tem ninguém. E até parece que sente minha falta ou que sequer pensa em mim. Claro que é uma coincidência enorme eu conhecer justo o melhor amigo dele, mas ainda assim. – Ele tem namorada?
- Por que você mesma não pergunta? – pegou meu celular, que tinha caído do meu bolso e estava ao meu lado na grama, e digitou um número, salvando-o. Devolveu-me o aparelho e eu conferi: . Jake tinha acabado de me dar o número do celular dele. Uma insegurança me invadiu. E se ele tivesse mesmo alguém? – Ele tem namorada? – perguntei antes de conseguir me controlar. Jake mordeu o lábio. – Jake... Se eu não tiver acesso a essa informação, não vou ter coragem de ligar.
- Não. Ele não tem namorada. Ok? – falou, piscando para mim. – E ele mora em Londres.
- Londres? – meu queixo caiu. Isso era mais do que eu esperava. Agora que eu não teria mesmo coragem de ligar.
- É. Não vai ligar pra ele?
- Não sei... Eu...
- ! Finalmente te encontrei! – ouvi a voz de e levantei. – Vamos?
- Vamos. – concordei, virando-me para me despedir de Jake. Ele perguntou o número do meu celular e, depois de anotado, nos despedimos com um abraço rápido.
Fui o caminho todo ignorando o imenso monólogo de sobre a festa e pensando apenas em . Será que eu deveria ligar? Uma parte de mim queria ouvir sua voz novamente, mas outra parte simplesmente tinha medo.
Chegando em casa, passei tanto tempo encarando o celular que memorizei seu número. Depois de um longo banho e muita reflexão, decidi que iria ligar. Era melhor arriscar, não é? Eu pedira um sinal, e a estrela me mostrara Jake, o melhor amigo de . Isso só podia ser um sinal. Tinha que ser.
Depois de colocar um pijama confortável, sentei na cama e digitei no celular os números que eu já sabia de cor. Três bipes depois, ouvi um barulho e prendi a respiração, sentindo meu coração acelerar.
- Alô?
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